Crise no agro: 517 recuperações judiciais em um trimestre e R$ 38 bi sob stress
O agronegócio brasileiro registrou 517 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026, alta de 33% em relação ao mesmo período do ano passado. O volume financeiro envolvido nesses processos soma aproximadamente R$ 38 bilhões em passivos totais, dos quais R$ 31,5 bilhões estão concentrados em operações com passivo acima de R$ 30 milhões. Se o ritmo se manter, 2026 pode superar o recorde histórico de quase 2 mil pedidos registrados em 2025. Os dados são de análise divulgada em 29 de julho pela Neot, empresa especializada em gestão de processos de insolvência.

O que aconteceu
O quadro do agro em 2026 é de acúmulo de pressões que começaram em 2022. A Neot mapeou os fatores que explicam o salto nos pedidos de recuperação judicial:
Queda acentuada nos preços de soja e milho a partir de 2022/2023, após período de alta que inflou expectativas e endividamento no setor. O CEO da Neot, Julio Moretti, foi direto: “O principal fator é justamente a queda acentuada de preços a partir de 2022/23, tornando ainda mais apertado o comércio no setor.”
Além da queda de preço, pesaram a quebra de safra em 2024 por condições climáticas desfavoráveis, o crédito rural restrito em função dos juros elevados e o excesso de oferta nos mercados de grãos globais. Os efeitos combinados de tudo isso levam em média dois anos para aparecer nos balanços e nas falências. O que estamos vendo em 2026 é o resultado colhido de 2022/2023.
Os 517 pedidos do trimestre se distribuem da seguinte forma:
- Produtores rurais (pessoa física e jurídica): 305 pedidos
- Revendas e distribuidoras de insumos: 83 pedidos
- Agroindústrias e usinas: 62 pedidos
- Logística e armazenagem: 41 pedidos
- Indústrias de insumos: 26 pedidos
A concentração geográfica segue o mapa do agronegócio de grãos. Goiás lidera com 113 pedidos, seguido por Mato Grosso (98), Rio Grande do Sul (62), Minas Gerais (56) e Paraná (54). Não por acaso, são os estados onde a exposição ao crédito rural de alto volume é maior.
A Neot foi explícita sobre o cenário à frente: “Longe de uma normalização, a crise mantém velocidade de expansão significativa.” A empresa aponta ainda o risco do El Niño forte projetado para a safra 2026/2027 como fator que pode prolongar a crise.
Por que isso importa pro assessor
Quem tem cliente com exposição em crédito agro precisa revisar essa posição agora. Os 517 pedidos do trimestre não são abstratos. Eles se traduzem em CPRs, CRAs, debêntures e fundos de crédito privado com lastro em produtores rurais, distribuidoras de insumos e agroindústrias dos estados de Goiás, Mato Grosso, RS, MG e PR.
O assessor com cliente em fundo de crédito privado que inclui agro no portfólio precisa saber: qual o percentual de exposição, qual o prazo dos ativos, e quais as safeguards do gestor. Não é pra sair correndo, é pra ter a conversa antes que o extrato apareça negativo.
Uma atenção específica vale para CRAs com lastro em produtoras rurais de médio porte de GO e MT. A concentração nesses dois estados explica boa parte do volume de passivos. Distribuidor de insumos que toma recuperação judicial no Mato Grosso é exatamente o tipo de contraparte que aparece como lastro em CRA de prateleira.
Minha leitura
O número de R$ 38 bilhões em passivos sob stress chama atenção. Mas o que o assessor precisa entender é a mecânica: a maioria das recuperações judiciais no agro não vira default imediato no CRA ou no fundo. O processo é lento. O estrago aparece na marcação a mercado, na liquidez do ativo e na dificuldade de desinvestimento quando o cliente precisar do dinheiro.
Vale atenção a dois pontos práticos: primeiro, revisar fundos de crédito privado com exposição agro e entender o percentual de ativos no rol de estados afetados. Segundo, clientes com CRAs individuais em carteira precisam checar o emissor e o lastro. Quem tem cliente exposto deve iniciar a conversa agora, não quando a tungada já tiver aparecido no extrato. O jogo aqui é tempo de resposta.
Fonte: Money Times





