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NOTÍCIA

Vinland nunca esteve tão seletiva. O crédito privado explica o porquê

Gestora especializada avisa: spreads abriram, mas varejo e saúde ainda escondem armadilhas que podem comer dois anos de retorno da sua carteira.

Ambiente de análise de crédito privado com gráficos de spread em monitores

Vinland nunca esteve tão seletiva. O crédito privado explica o porquê

A Vinland Capital declarou que está no modo mais seletivo da história da casa no crédito privado. Os spreads abriram mais de 120 pontos-base em relação ao pico de outubro do ano passado e a gestora reabriu todos os fundos para captação. Mas Jean-Pierre Cote Gil, sócio e gestor da casa, está deixando claro: o jogo agora é de precisão, não de volume. Setores inteiros estão fora do radar.

Ambiente de análise de crédito privado com gráficos de spread em monitores

O que aconteceu

A Vinland tem uma equipe de 10 profissionais acompanhando cerca de 1.000 emissões e 150 grupos econômicos. A rotina é de precificação diária de cada papel. Quando essa gestora diz que chegou na maior seletividade do histórico, vale prestar atenção.

O cenário que gerou essa postura tem contexto. Em 2026, fundos de crédito começaram a registrar retornos negativos e os resgates aumentaram. A abertura de spreads que se seguiu criou oportunidade, mas não de forma homogênea. Para a Vinland, os setores se dividem de forma clara entre o que faz sentido alocar e o que não faz.

Varejo está fora. Margens apertadas, lojas geralmente alugadas em vez de próprias, alta dependência de capital de giro. Nas palavras de Cote Gil: “Se você não tiver capital de giro para rodar, você morre no caminho.” Em cenário de estresse, o índice de recuperação para o credor nesses papéis é baixo.

Saúde piorou de fundamentos. Os spreads abriram com força no setor, mas parte da abertura reflete problema real, não exagero de mercado. A gestora avisa: quando o setor voltar a se fechar, vai chegar num patamar diferente do que estava antes da crise de confiança. Parte do prêmio que parece oportunidade é risco que ficou precificado.

Infraestrutura é o vetor principal. Contratos de longo prazo, previsibilidade de caixa e expansão regulatória para telecomunicações, petróleo, gás e agronegócio. Mas mesmo aqui a análise precisa ser granular: saturação de fibra óptica já pressiona as margens de operadoras em algumas cidades, com múltiplas redes competindo pelos mesmos endereços.

Tem um problema estrutural no pano de fundo. A Lei de Falências ainda é permissiva demais com o devedor. Empresas em dificuldade estão, nas palavras do próprio gestor, “perdendo a vergonha” de colocar o credor para dividir a conta da reestruturação. No 12º Fórum de Investimentos no Brasil (Bradesco BBI), Cote Gil foi direto: “Mesmo com as revisões recentes, a Lei de Falências ainda deixa espaço para o devedor chamar o credor e dizer: ‘divide a conta aqui comigo’. É ineficiente e muito ruim para o mercado de crédito.”

Fundos incentivados da Vinland oferecem retorno equivalente bruto de CDI mais 3 a 4 pontos percentuais em alguns casos. FIDCs estão pagando 100 a 200 pontos-base acima de ativos equivalentes, mas o gestor deixa claro que isso é prêmio de liquidez e de estrutura jurídica, não diferença de risco menor.

Por que isso importa pro assessor

Quem tem cliente com alocação em fundos de crédito privado precisa entender que o ciclo de abertura de spreads não foi homogêneo. O retorno que aparece no extrato consolidado de crédito pode estar carregando papéis de saúde ou varejo que a Vinland já descartou do portfólio.

O ponto prático: se o fundo que você alocou pro cliente comprou papel de varejista ou empresa de saúde no pico da abertura de spreads, o carrego parece bom agora. O problema aparece em evento de estresse. E o histórico recente de recuperação nesses setores é ruim, a ponto de a gestora mais especializada do mercado estar evitando por completo.

Vale também a pergunta sobre qual fundo está carregando o crédito do cliente. Não é sobre nome do fundo, é sobre o que tem dentro. Fundos generalistas de crédito podem ter concentração em exatamente os setores que a Vinland está evitando.

Minha leitura

Quando a gestora com 1.000 emissões na tela e precificação diária declara seletividade máxima, isso não é postura de marketing. É sinal de que o mato ainda está alto em setores que parecem baratos. Spread aberto não é sinônimo de oportunidade. Em varejo e saúde, parte do prêmio existe porque o risco existe.

Quem entrar nesses papéis agora só por causa do carrego pode estar trocando dois anos de retorno por uma yield que não compensa o cenário de estresse. Revisa o que tem dentro do crédito privado do cliente antes de concluir que tá bem alocado.

Fonte: Valor Investe

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