3tentos caiu 16% e a CVM pode perguntar: o que a Resolução 44 exige da empresa
As ações da 3tentos (TTEN3) tombaram 16% na terça-feira, 28 de julho. A queda foi uma das maiores do pregão e chamou atenção do mercado. O motivo oficial ainda é disputado: a empresa nega a versão que circulou.

O que aconteceu
Na terça-feira, 28 de julho, as ações da 3tentos (TTEN3) despencaram 16% num único pregão. O movimento chamou atenção pela magnitude e pela velocidade.
O que circulou no mercado: relatos de que a 3tentos teria realizado uma reunião fechada com analistas sell-side onde revisou projeções financeiras para baixo. Se verdade, isso configuraria uma situação delicada do ponto de vista regulatório. A empresa negou que o encontro ocorreu.
Antes do fechamento, o Citi divulgou análise preliminar do 2T26 projetando consumo de caixa de aproximadamente R$ 900 milhões. O BTG Pactual, por sua vez, manteve recomendação de compra em 29 de julho e atribuiu a queda de 16% a revisões de expectativas por parte dos analistas.
A pergunta que fica: se houve reunião com projeções revisadas, por que o mercado tomou conhecimento antes de qualquer comunicado oficial?
É aqui que entra a Resolução CVM 44. O artigo 3 da norma obriga o Diretor de Relações com Investidores (DRI) a divulgar imediatamente qualquer fato relevante que possa influenciar o preço dos valores mobiliários ou a decisão dos investidores. Reunião com analistas que resulte em revisão de projeções, se confirmada, enquadra nessa exigência.
André Passos, especialista em Direito do Mercado de Capitais, foi direto: “A não divulgação de informação relevante pode levar a CVM a realizar investigação rigorosa e responsabilizar os administradores.”
A CVM não é obrigada a investigar toda queda atípica, mas pode solicitar esclarecimentos sobre volatilidade incomum. A partir daí, decide se instala processo administrativo.
Por que isso importa pro assessor
Quem tem cliente com TTEN3 na carteira precisa ter resposta pra essa pergunta. O cliente já viu a queda de 16%, já perguntou o que tá acontecendo e quer mais do que “empresa nega”.
A resposta honesta agora é: o quadro ainda está indefinido. A empresa nega a reunião. O regulador ainda não se pronunciou. O BTG manteve compra, mas o Citi projetou consumo pesado de caixa. São versões diferentes sobre o mesmo ativo.
Volatilidade de 16% em um dia em empresa do agronegócio, num contexto de incerteza regulatória, é tipo de risco que precisa ser discutido abertamente com o cliente antes de qualquer decisão de manter ou sair.
Minha leitura
O problema não é a queda. Queda de 16% em ação acontece. O problema é a opacidade. Se houve reunião com analistas que resultou em revisão de projeções, o mercado soube antes dos investidores comuns. Isso quebra o princípio básico de equidade de acesso à informação.
A CVM tem ferramentas pra investigar isso. A questão é se vai usar. O histórico mostra que o regulador age quando há evidências concretas de seletividade de informação. Ainda não sabemos se é esse o caso aqui.
Vale atenção ao que a empresa vai divulgar nos próximos dias como fato relevante.
Fonte: Money Times





