CVM vê as caixinhas do mercado sumindo e mira no finfluencer
No Expert XP 2026, a diretora da CVM Marina Copola disse em voz alta o que o mercado sente há anos: as fronteiras entre gestor, administrador e analista estão sumindo. O finfluencer é o caso mais visível. A autarquia admitiu que a regulação precisa se atualizar, mas ainda não tem resposta pronta e quer fazer isso sem travar a inovação.

O que aconteceu
Na quinta-feira, 23 de julho de 2026, durante o Expert XP 2026, a diretora da CVM Marina Copola abriu o jogo: o modelo de “caixinhas” que separava as categorias do mercado financeiro está se desfazendo. Gestor, administrador, analista, assessor, finfluencer: todos tinham fronteiras mais claras no passado. Hoje essas fronteiras estão se apagando, e a regulação ainda não sabe onde se posicionar.
“Isso vem acabando, o finfluencer é um exemplo, ele é um analista ou influencer, como tratamos isso?”, disse Copola. A pergunta não foi retórica. A diretora admitiu que a CVM ainda não tem resposta definitiva.
O finfluencer cresceu no mato alto regulatório dos últimos anos. Fez o que fez sem ser enquadrado em nenhuma caixinha. A CVM agora está tentando entender onde ele entra na conta, mas sem apertar demais para não estrangular a inovação.
A autarquia abriu consulta pública sobre finfluencers em novembro de 2023. Mais de dois anos depois, não regulamentou a categoria de forma autônoma. Na agenda regulatória de 2026, está prevista a revisão das regras para instituições que contratam finfluencers. Ou seja, o foco vai nas plataformas e escritórios que os contratam, não necessariamente no criador de conteúdo em si.
Copola também contextualizou o problema mais amplo: o Brasil tem baixíssima poupança e alto analfabetismo financeiro. Para ela, transparência isolada não resolve a proteção ao investidor. “A razão de ser da CVM é a segurança do investidor, esse é o mandato legal. A forma como essa proteção se dá tem de mudar ao longo do tempo”, afirmou.
A diretora reconheceu que a autarquia não tem controle sobre mudanças de paradigma, mas precisa construir resposta regulatória à altura. “Não temos controle das mudanças de paradigma dos cenários. Quando vamos estruturar uma operação, esquecemos por que existem alguns regramentos.”
Por que isso importa pro assessor
O finfluencer e o assessor operam no mesmo território: falar de dinheiro pra quem tem dinheiro. Só que a regulação sobre cada um é completamente diferente. O assessor carrega CVM, ANCORD, ANBIMA, compliance do escritório, non solicit, non compete. O finfluencer, até hoje, carrega seguidores.
Quando a CVM mexer nessa equação, o impacto chega no escritório. A revisão prevista na agenda 2026 é sobre as instituições que contratam finfluencers, o que inclui plataformas e escritórios. Qualquer nova regra vai criar obrigações pra quem está do lado de dentro, não só pro criador de conteúdo.
Para o assessor que atende cliente de patrimônio menor, o finfluencer já é concorrência direta. O cliente chega na primeira reunião com tese de finfluencer na cabeça. Quanto mais esse modelo cresce sem regulação clara, mais o assessor precisa se diferenciar pelo que a regulação protege: responsabilidade, dever fiduciário, resposta legal pelo conselho dado.
Minha leitura
Isso sinaliza o começo de um processo longo. A CVM admitindo publicamente que as “caixinhas” sumiram é relevante, mas a regulamentação efetiva de finfluencer como categoria ainda vai demorar. O que vai acontecer antes, pela agenda 2026, é pressão sobre as plataformas que os contratam.
Vale atenção a como corretoras e escritórios vão reagir quando essa regra vier. Se o escritório passa a responder pelo finfluencer que contrata, o modelo de parceria muda, e o assessor dentro desse ecossistema precisa entender onde fica nessa conta.
O jogo aqui é esse: a regulação não vai proteger o assessor da concorrência do finfluencer. Mas vai forçar a comparação a ser mais honesta. Quem tem substância sobrevive. Quem vivia na brecha da assimetria regulatória vai ter que se reposicionar.
Fonte: InfoMoney





