Tokenização quer acabar com o horário da B3: o que muda pro assessor
Um painel no Money Legos Rio reuniu representantes de BitGo, Pods, Zeom, Dynamic, Ondo e Etherfuse para discutir algo que o mercado financeiro tradicional prefere não encarar de frente: a B3 pode deixar de fechar às 18h. A tokenização não é mais conversa de entusiasta de cripto. Virou pauta de banco suíço, evento de mercado de capitais e projeção de US$ 4 trilhões.

O que aconteceu
O Money Legos Rio colocou na mesma mesa nomes do mercado cripto e do sistema financeiro tradicional. A conclusão que saiu do painel: a blockchain está deixando de ser “produto à parte” e passando a funcionar como camada de infraestrutura do sistema financeiro. Não é metáfora. É o que está sendo construído agora.
Um exemplo concreto apresentado no evento: um único usuário movimentou aproximadamente US$ 30 milhões em USDC em cerca de uma hora usando a infraestrutura de emissão e resgate da Ondo, com impacto reduzido no preço. Isso não é teste de laboratório. É operação real rodando em produção.
A Standard Chartered projeta que o mercado de ativos tokenizados pode alcançar US$ 4 trilhões nos próximos anos. Para referência: a capitalização total da B3 hoje fica em torno de US$ 1 trilhão. O que estão projetando é quatro vezes o tamanho da nossa bolsa em ativos rodando em blockchain.
Os obstáculos que ainda travam
O painel foi honesto sobre o que falta. Cinco barreiras foram identificadas: liquidez fragmentada entre plataformas, horários de operação limitados dos mercados tradicionais, falta de profissionais com conhecimento de blockchain, fragmentação regulatória entre países e ausência de educação sobre os produtos disponíveis.
A terceira barreira, especificamente, é onde o assessor entra. “Falta de profissionais especializados em blockchain” não é problema de TI. É problema de quem vai sentar na frente do cliente e explicar o produto.
Por que a América Latina está na frente nessa
O interesse da América Latina por stablecoins não é modismo. É busca por exposição ao dólar e alternativas ao sistema financeiro local. Em mercados com histórico de instabilidade monetária, ativo estável em blockchain resolve um problema real que o banco tradicional não resolve bem. Brasil está, por esse ângulo, em boa posição para adoção.
Por que isso importa pro assessor
A tokenização não vai chegar ao cliente como “investimento em cripto”. Vai como custódia com rendimento, colateral para crédito, ativo que não para de trabalhar nem quando a B3 fecha. A inovação é infraestrutura, não produto específico.
Se um cliente perguntar hoje “como funciona stablecoin rendendo dólar?” ou “posso usar meu ativo tokenizado como garantia para crédito?”, quantos assessores da base têm resposta preparada? Esse é o gap que vai separar quem capta esse segmento de quem não capta.
O segundo obstáculo listado no painel é direto: “horários de operação limitados dos mercados tradicionais.” Quando essa barreira cair, o pregão das 9h às 18h que organiza o dia do assessor começa a perder sentido como referência. Não acontece de um dia pro outro. Mas o processo de mudança já começou, e os primeiros que estruturarem atendimento para esse cliente vão ter vantagem real.
Minha leitura
Quando Standard Chartered projeta US$ 4 trilhões em ativos tokenizados, isso não é projeção de startup empolgada. É sinal de que a infraestrutura está sendo levada a sério por quem tem capital e histórico para fazer acontecer.
O assessor que ainda vê tokenização como “coisa de cripto” está na velocidade de cruzeiro enquanto a pista muda. Os que souberem explicar a estrutura antes vão captar um segmento que os outros não conseguem atender porque não entendem o produto. Escritório não vai te treinar nisso de graça. A conta de não estudar agora vai aparecer quando o cliente vier com a pergunta e você não tiver resposta.
Fonte: Exame





