A consultoria que guiou R$ 97 mi do IPREV de Maceió pra dentro do Master
A Polícia Federal aponta que a consultoria Crédito & Mercado de Valores Mobiliários atuou de forma coordenada para direcionar R$ 97 milhões do fundo de previdência dos servidores de Maceió (Iprev/Maceió) para letras financeiras subordinadas do Banco Master. O ministro André Mendonça, do STF, autorizou oito mandados de busca e apreensão cumpridos neste domingo (10) em São Paulo e Alagoas, além do bloqueio de até R$ 97 milhões em bens dos investigados.

O que aconteceu
O Iprev/Maceió, instituto de previdência dos servidores públicos da capital alagoana, aplicou R$ 97 milhões em letras financeiras subordinadas do Banco Master em duas operações: R$ 80 milhões em dezembro de 2023, a IPCA + 7,6% ao ano, e R$ 17 milhões em maio de 2024, a IPCA + 7,3% ao ano. Além disso, o instituto alocou R$ 51 milhões em fundo imobiliário ligado ao banco, totalizando R$ 117 milhões em exposição ao Master.
A PF, dentro da Operação Compliance Zero, afirma que a Crédito & Mercado participou ativamente do processo de credenciamento, preparação de análises e formação de documentação das operações com o Master. A polícia chama isso de “terceirização indevida de competência administrativa” do instituto: quem deveria decidir pelo fundo delegou essa função pra consultoria.
O principal investigado do lado da consultoria é Renan Foglia Calamia, diretor da Crédito & Mercado. Ele já tem condenação em primeira instância na Justiça Federal de Campinas/SP por gestão temerária em regime de previdência municipal, além de envolvimento na Operação Rebote.
Pelo lado do Iprev, os principais alvos são Ronnie Reyner Teixeira Mota, ex-diretor-presidente do instituto, e Gustavo Antônio Rodrigues de Souza, ex-coordenador-geral de investimentos. Ao todo, seis pessoas físicas e duas pessoas jurídicas estão na investigação, com crimes que incluem gestão fraudulenta, desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
O ministro Mendonça, no STF, apontou gestão fraudulenta no Iprev de Maceió e autorizou o bloqueio de até R$ 97 milhões em ativos dos investigados. Oito mandados de busca e apreensão foram cumpridos simultaneamente em São Paulo e Alagoas.
A Crédito & Mercado não foi contratada só por Maceió. A consultoria atuou em pelo menos sete institutos de previdência pública que compraram letras do Master no mesmo período: São Roque perdeu R$ 93 milhões, Araras R$ 34 milhões, Santo Antônio da Posse R$ 7 milhões. O padrão se repetiu em todos.
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025, após problemas de liquidez da instituição virem à tona.
Por que isso importa pro assessor
Quem assessora clientes com exposição a previdência, seja RPPS, EFPC ou previdência aberta com crédito privado, precisa entender quem está do outro lado da recomendação. O caso do Iprev mostra como uma consultoria contratada pra proteger o fundo pode, na prática, ter atuado no interesse do produto que indicava.
Para assessores que têm clientes com posição em letras financeiras de bancos médios, o episódio levanta uma pergunta que precisa ser respondida antes de alocar: quem indicou esse ativo e qual o interesse de quem indicou? Crédito privado de banco em dificuldade vira manchete. E quando vira, o cliente olha pra você.
Minha leitura
O que chama atenção aqui não é só o rombo de R$ 97 mi. É o padrão: a mesma consultoria aparece em pelo menos sete institutos diferentes, com o mesmo produto, no mesmo período. Quando a repetição é assim, não é coincidência de mercado.
O Renan Foglia Calamia já tinha condenação por gestão temerária em previdência antes de fechar com o Iprev de Maceió. Isso sinaliza que o processo de credenciamento da consultoria falhou em algum ponto, ou foi ignorado a propósito.
Pra quem trabalha com cliente que tem carteira de previdência: entender quem assessora o fundo é tão importante quanto entender o fundo. O assessor de previdência pública tem obrigação fiduciária. Quando essa obrigação é terceirizada pra quem tem outro interesse, o cotista toma a tungada.
Fonte: Folha de São Paulo





