COE de crédito não é capital protegido: o que a Ambipar provou
O mercado de COEs acumula R$ 100 bi em custódia. Mas as novas emissões caíram 21,4% em 2026, e o ticket médio encolheu de R$ 225 mil pra R$ 164 mil. Três forças mudaram o produto: o caso Ambipar, as novas regras de suitability da ANBIMA e os juros altos que tornaram a renda fixa competitiva demais.

O que aconteceu
O balanço do mercado de COEs em 2026 tem dois números que não se encaixam à primeira vista.
O estoque total chegou a R$ 100,2 bilhões em abril de 2026, mais que o triplo do volume que a ANBIMA registrava em 2021 e 29% acima de todo o ano anterior. São 710 mil contas no Brasil expostas ao produto. O crescimento da base parece robusto.
Mas o fluxo de novas emissões conta outra história. Nos primeiros cinco meses de 2026, o volume de emissões ficou em R$ 14,2 bilhões, queda de 21,4% em relação ao mesmo período de 2025. Os contratos aumentaram 8,2%, o que significa mais operações com tickets menores. O ticket médio foi de R$ 225 mil pra R$ 164 mil.
O segmento de alta renda é onde o sinal fica mais claro. Entre dezembro de 2025 e abril de 2026, captou R$ 3,7 bilhões, contra R$ 8,6 bilhões no mesmo período do ano anterior. O investidor com patrimônio relevante ficou mais seletivo. Três razões simultâneas explicam o movimento.
A ruptura de confiança com a Ambipar
O caso Ambipar abriu uma fissura que o mercado ainda tá processando. Quando a empresa entrou em recuperação judicial, investidores que tinham “COE de crédito” descobriram que a proteção de capital que esperavam não se aplicava. Rodrigo Franchini, da Monte Bravo, descreveu bem: “Muita gente achava que tinha capital protegido, mas, no COE de crédito, o investidor está comprando risco de crédito.” E concluiu que o episódio criou “uma ruptura de confiança no produto”.
COE de renda variável – com capital nominalmente protegido mais participação em índice – e COE de crédito são produtos com perfis de risco completamente diferentes. Durante anos, parte do mercado não fez questão de destacar essa distinção na hora de alocar.
As novas regras de suitability da ANBIMA
Em maio de 2025, a ANBIMA publicou regras específicas de adequação para COEs. Passou a valer: classificação de risco mais rígida, consideração de idade do investidor, prazo do contrato e percentual máximo de alocação na carteira. Antes, era possível ter 50% do patrimônio em COE. Hoje, praticamente impossível dentro das novas grades.
As plataformas implementaram barreiras de distribuição mais rígidas. Quem distribui COE precisa documentar adequação de forma mais robusta e assumir o risco de reclamação se o produto não encaixou no perfil.
O juro alto como concorrência
Com a Selic no patamar atual, títulos prefixados pagando próximo de 14% ao ano e IPCA+ com carrego real elevado, o prêmio que o COE precisa oferecer pra justificar prazo e iliquidez tem que ser bem maior. O investidor de alta renda, que tem acesso a mais alternativas, fez essa conta.
O modelo de remuneração também mudou nessa direção. No fee-based, a receita não depende de giro de produto – e o incentivo pra alocar COE porque paga bem pro escritório diminui.
Por que isso importa pro assessor
Se você tem base com posição relevante em COE de crédito, precisa checar se o cliente entende o que comprou. Não pra desfazer a posição, mas pra alinhar expectativa. Ambipar não foi o último caso de crédito privado com problema.
O risco regulatório é real. Se uma venda de COE não respeitou as novas grades de suitability da ANBIMA e der problema pro cliente, a reclamação vai chegar com o histórico do produto e do assessor. Quem não documentou adequação corretamente não tem mais argumento.
Minha leitura
O COE não morreu. Mas o COE que vendia sozinho porque pagava bem pro escritório e o cliente não entendia o risco está no mato alto.
As novas regras da ANBIMA são o reflexo do que a Ambipar acelerou: o regulador viu o produto sendo distribuído sem adequação real e agiu. Agora a responsabilidade pela adequação ficou com quem distribui – com mais peso do que antes.
O assessor que documenta suitability antes de alocar qualquer COE hoje está coberto. O que usava o produto como saída fácil pra fechar o mês vai encontrar mais fricção.
Fonte: NeoFeed





