474 RJs no agro em 3 meses: como falar com o cliente exposto
O agronegócio encerrou o primeiro trimestre de 2026 com 474 pedidos de recuperação judicial, alta de 21,9% frente ao mesmo período de 2025. Produtores rurais que operam como pessoa jurídica registraram o maior salto: 196 pedidos, aumento de 73,5% em um ano. Os dados são da Serasa Experian, divulgados nesta quarta-feira (12).

O que aconteceu
474 pedidos de recuperação judicial em três meses. O número é do levantamento trimestral da Serasa Experian e vem dentro de uma série que não para de subir: em 2025 inteiro foram 1.990 pedidos, alta de 56% sobre 2024. No segundo trimestre de 2025 foram 565, no terceiro 628. Mesmo com uma leve desaceleração no quarto trimestre (408), o primeiro trimestre de 2026 voltou a crescer.
O detalhe que muda o diagnóstico está na composição. Os produtores rurais que operam como pessoa jurídica somaram 196 pedidos no 1T26, alta de 73,5% frente ao 1T25. Produtores pessoa física recuaram 6,7% (182 pedidos), mas empresas da cadeia de insumos, como distribuidoras de fertilizantes e defensivos, subiram 18,5% (96 pedidos). A crise está se espalhando pela cadeia inteira.
Mato Grosso lidera o ranking de pedidos, seguido por Paraná e Goiás. São as três maiores regiões produtoras de soja e milho do país, os dois grãos que sofreram mais pressão de cotação nos últimos dois anos.
Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, aponta o ambiente de crédito mais seletivo combinado à manutenção de custos elevados como o principal fator. Natalia Yazbek, sócia do escritório BMA especializado em reestruturação e insolvência, resume: “a crise é resultado de anos de pressão, desde 2022”. A sequência é conhecida pelo mercado: invasão da Ucrânia que chacoalhou os preços de fertilizantes, safras seguidas com margens apertadas, juros elevados aumentando o custo do crédito rural, e agora o encarecimento de insumos trazido pelo conflito no Irã em 2026.
Um dado que passa despercebido nas manchetes: o valor médio das dívidas de quem está pedindo recuperação está caindo. Isso sinaliza que o problema não está mais concentrado nos grandes produtores que se alavancaram em arrendamentos agressivos durante o período de boom. Está chegando nos pequenos.
Por que isso importa pro assessor
Se você tem cliente com CRA, debênture de empresa do agronegócio ou fundo de crédito privado com exposição ao setor, esse dado precisa entrar na sua agenda de revisão de carteira agora. Não amanhã.
A crise não é nova, mas a velocidade de disseminação para produtores menores e para empresas da cadeia de insumos muda o perfil de risco de emissores que pareciam mais sólidos até pouco tempo atrás. CRAs emitidos entre 2021 e 2023, quando o crédito estava farto e os produtores expandiram via arrendamento, concentram boa parte do risco atual. O assessor que alocou crédito privado agro nesses anos com a tese de “setor exportador resiliente” precisa verificar, título por título, o que tem na base. O mato alto aqui é mais alto do que estava em 2025. E cliente que descobre o risco pelo extrato em vez de uma ligação sua vai pedir transferência.
Minha leitura
474 RJs em três meses não é um produtor mal gerido tendo um problema pontual. É o sinal de que o stress chegou em quem tinha crédito, tinha histórico e era considerado bom pagador até recentemente.
Vale atenção a dois pontos: primeiro, emissores de crédito privado agro de médio porte com emissões entre 2021 e 2023, período de expansão acelerada com crédito farto. Segundo, empresas de insumos, que subiram 18,5% nos pedidos. Distribuidora de fertilizante que quebra pode arrastar CRA de produtor que dependia dela no custeio.
O jogo aqui é ligação antes que o extrato apareça. Quem fala primeiro controla a narrativa. Quem espera o cliente perguntar já perdeu metade da conversa.
Fonte: Folha Mercado





