30 escritórios comprados em 6 meses: o que seu contrato diz sobre isso?
Quase 30 mandatos de aquisição ativos no mercado. 91% mais operações de M&A em 2025 comparado com 2024. R$ 50 a 75 bilhões de AuC em movimento até meados de 2026, segundo a consultoria AAWZ.
Cada vez que um desses deals fecha, tem um grupo de assessores que leu a notícia no LinkedIn e voltou pra mesa. Sem saber o que mudou pra eles.
Em resumo: O mercado de assessorias vive o maior ciclo de consolidação dos últimos anos. Blue3 chegou a R$ 50 bilhões comprando All Investimentos e Único. Manchester chegou a R$ 26 bilhões absorvendo Siglo e Maven. Davos criou uma área específica de M&A. O que acontece com o assessor quando o escritório é vendido depende do que está escrito no contrato – e a maioria não leu essa parte.
Os números que você precisa ter na cabeça
Blue3 Investimentos: comprou Único Investimentos (R$ 2 bilhões de AuC, 22 assessores), depois comprou All Investimentos, chegou a R$ 50 bilhões sob custódia. Meta: R$ 100 bilhões até 2027.
Manchester: absorveu Siglo e Maven, está com R$ 26 bilhões. Meta declarada: R$ 100 bilhões em 7 anos.
Davos: comprou a Sirius e criou uma área dedicada pra M&A – quer dizer que tem mais aquisições planejadas no radar.
Fatorial: comprou Golf Invest (R$ 750 milhões, 8.000 clientes, 40 profissionais).
Antes de 2024, a média era 4 operações de M&A por ano no setor. Em 2025, o ritmo dobrou pra mais de 2 por mês.
Esse não é um movimento isolado. É uma onda de consolidação que vai continuar. Filipe Medeiros, da AAWZ, resume assim: “Grandes players estão comprando escritórios médios, ajustando as expectativas de múltiplos em relação a transações anteriores.”
O que está acontecendo é que corretoras grandes e fundos capitalizados estão comprando participação de mercado rápido – em vez de crescer orgânico, compram carteira pronta.

O que a maioria dos assessores não sabe sobre seu próprio contrato em M&A
Quando um escritório é vendido, o novo dono não herda automaticamente as mesmas condições de trabalho dos assessores. Herda a carteira, a estrutura, o CNPJ – mas as obrigações com os assessores dependem do que está escrito no contrato original e do que foi (ou não foi) negociado no deal.
Três pontos que poucos assessores checam antes de precisar:
Cláusula de change of control: alguns contratos têm previsão explícita do que acontece em caso de mudança de controle societário. Outros ficam em silêncio sobre isso. Silêncio não é proteção – é ambiguidade que favorece quem tem o departamento jurídico maior.
Non solicit e non compete em M&A: seu non compete foi assinado com o escritório original. Quando o escritório é comprado, o não-compete geralmente é transferido junto com o contrato. Você pode estar impedido de levar cliente pra outro lugar usando regras que foram escritas por uma empresa que nem existe mais.
Garantia de repasse por prazo: se o seu repasse era X% no escritório original e o comprador tem uma política de Y%, não tem regra automática que garante manutenção. Depende do que foi negociado e do que está formalizado.
O assessor que leu o próprio contrato e entende essas cláusulas tem muito mais clareza sobre o que pode e o que não pode quando o deal fecha. O que não leu descobre na hora de sair – ou quando o jurídico bate na porta.

O que aconteceu com os assessores da All Investimentos quando a Blue3 comprou
A Blue3 comprou a All Investimentos – escritório ligado à XP – e chegou a R$ 50 bilhões de AuC. O movimento foi rápido. Os 22 assessores da operação anterior acordaram num escritório diferente.
Não é drama. Mas é um cenário que muda coisas concretas: liderança, processo de aprovação de produto, metas, estrutura de repasse, cultura de cobrança, liberdade de agenda.
O assessor que tinha clareza do contrato entrou nesse processo sabendo o que era negociável e o que não era. O que não tinha essa clareza ficou na posição de quem descobre as regras depois do jogo começar.
Isso não é específico da Blue3. Acontece em qualquer M&A. O que muda de empresa pra empresa é a cultura pós-aquisição – e isso raramente está no contrato.
A análise do Efeito 95% – quando a Genial chegou a R$ 19 bilhões mostra como o crescimento por aquisição muda a dinâmica de pressão sobre o assessor da ponta. O movimento que acontece no escritório grande chega na mesa de quem prospecta.
O que checar no contrato hoje – antes de precisar
Não espera o deal acontecer. Lê o contrato agora.
O que você está procurando:
1. Tem cláusula de change of control? Se sim, o que ela diz? Se não, como o contrato trata mudança societária relevante?
2. O non solicit e non compete são transferíveis? Quem é o beneficiário dessas cláusulas – o escritório específico ou “qualquer sucessor”?
3. Tem garantia de repasse por prazo determinado? Ou o repasse pode ser revisto unilateralmente pela nova gestão?
4. Câmara de arbitragem: onde fica? Quem escolheu? Se o escritório original era em SP e o comprador é do RJ, a arbitragem pode virar um problema logístico e financeiro antes de virar jurídico.
5. Vigência do contrato e condições de rescisão: se você quiser sair depois de uma aquisição que mudou as condições, o que você deve pagar? O novo dono herda o direito à multa rescisória?
Se você não entende algum desses pontos depois de ler o contrato, não estou dizendo que você vai se queimar. Estou dizendo que você não sabe o que pode acontecer. Diferente.
Apenas 10% dos M&As de assessorias se concretizam – mas você não controla em qual vai estar
A AAWZ aponta que apenas 10% das negociações de M&A em assessorias chegam ao fechamento. O principal problema é divergência de valuation – o vendedor quer um múltiplo, o comprador oferece outro.
Mas 10% de quase 30 mandatos ainda são 3 deals. Por mês. Num setor que antes tinha 4 por ano.
Você não controla se seu escritório vai ser vendido. Não controla quem vai comprar nem em que condições o deal vai fechar. O que você controla é o quanto você sabe sobre o que está assinado e o que vai acontecer com você nos cenários possíveis.
A lógica é parecida com o que aconteceu no movimento da XP com o 8º prêmio Folha – o assessor que entende a dinâmica do mercado não vai ser pego de surpresa quando o movimento chega perto da sua mesa.
Perguntas frequentes sobre M&A e contrato de assessor
Quando o escritório é vendido, meu contrato é automaticamente encerrado?
Não necessariamente. Em geral, o novo dono assume os contratos vigentes. Mas o que isso significa na prática depende do que está escrito. O contrato pode ter cláusulas que permitem revisão de condições após mudança de controle, ou pode não ter – e aí o novo dono assume as mesmas condições por padrão.
Posso sair do escritório sem multa se ele for vendido e as condições mudarem?
Depende do contrato e do que foi alterado. Se houver cláusula de change of control com direito de rescisão sem ônus, sim. Se não houver, a rescisão segue as regras normais. Vale consultar um advogado especializado antes de tomar qualquer decisão.
O non compete que assinei com o escritório original vale com o novo dono?
Em regra, sim – o novo dono herda os contratos e seus termos, inclusive o non solicit. Mas há casos onde a mudança de controle foi usada como argumento jurídico pra questionar a validade. Depende do contrato e da situação específica.
Como saber se meu escritório tem mandato de venda ativo?
Você provavelmente não vai saber antes do deal fechar. O que dá pra fazer é acompanhar o mercado, estar em posição clara sobre seu próprio contrato, e não ser pego completamente de surpresa quando a notícia sair.
A onda de M&A não para – você decide se ela te pega de surpresa ou preparado
O mercado de assessorias está em consolidação. Não é opinião – é número. 91% mais operações em 2025. Quase 30 mandatos ativos. R$ 75 bilhões em movimento.
Cada deal desse pega um grupo de assessores que vai precisar entender o que o contrato garante – ou não garante. Os que leram o contrato e entendem as cláusulas entram nessa conversa com clareza. Os que não leram entram sem saber o que podem negociar.
Você não controla quem vai comprar seu escritório. Controla o quanto você sabe sobre o que está assinado antes de precisar usar esse conhecimento.
Lê o contrato. Entende as cláusulas de change of control, non solicit e repasse. Se tiver dúvida jurídica, consulta um especialista antes de precisar. Esse não é um trabalho pra fazer depois do deal fechar.
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