Crédito estressado vira produto: R$ 212 bi em dívidas no radar dos fundos
R$ 212,8 bilhões em dívidas corporativas negativadas. 977 empresas em recuperação judicial só em 2025, o maior número desde 2016. O mercado de crédito estressado no Brasil parou de ser nicho e virou segmento com estrutura de fundo, gestor especializado e investidor institucional. O Grupo IOX está no centro desse movimento.

O que aconteceu
O Grupo IOX, especializado em crédito estressado, está avançando sobre um segmento que a maioria dos FIDCs brasileiros ainda evita: a compra de dívidas vencidas, ativos de empresas em recuperação judicial e operações de DIP Financing (Debtor-in-Possession Financing).
O contexto de mercado explica o apetite. Em março de 2026, o Banco Central registrou 8,9 milhões de CNPJs com dívidas negativadas, totalizando R$ 212,8 bilhões em 62 milhões de débitos em aberto. Em 2025, foram 977 processos de recuperação judicial abertos no Brasil, com 2.466 empresas envolvidas – o maior volume desde 2016.
O IOX Special, fundo do grupo voltado à compra desses ativos, manteve créditos vencidos em apenas 0,4% do patrimônio líquido em abril de 2026, com provisão para devedores duvidosos (PDD) de 0,3% do PL. A tese é que crédito estressado, quando bem precificado, não é sinônimo de perda – é classe de ativo.
Uma das estruturas centrais do modelo é o DIP Financing: um crédito novo concedido a uma empresa já em recuperação judicial, com prioridade de recebimento sobre os credores anteriores. Quem entra com DIP tem preferência de pagamento na hipótese de recuperação ou venda da empresa. Risco diferente do NPL convencional, estrutura jurídica diferente.
Richard Ionescu, CEO do Grupo IOX, resumiu a tese: “O ponto central não é evitar todo crédito vencido, mas saber precificar, estruturar garantias e recuperar.” Para ele, o segmento “não deve ser visto apenas como sintoma de deterioração, mas como parte de um mercado mais completo.”
A expansão dos FIDCs no Brasil está chegando a essa fase mais sofisticada. Não são mais só recebíveis comerciais performados – são créditos vencidos, operações distressed e estruturas que exigem gestão jurídica ativa para gerar retorno.
Por que isso importa pro assessor
O crédito privado convencional, como debêntures, CRI e CRA, já faz parte da alocação da maioria dos clientes com PL relevante. O mercado de crédito estressado é o próximo patamar – ainda restrito a investidores qualificados e profissionais, mas crescendo na prateleira das assets.
Se você atende clientes acima de 5MM, é provável que um FIDC com exposição a distressed chegue à sua mesa em breve, se já não chegou. A diferença que você precisa saber explicar: NPL (créditos com mais de 90 dias de atraso) e crédito estressado com estrutura de recuperação são coisas distintas. Um fundo que compra NPL sem processo de recuperação estruturado tem risco completamente diferente de um que utiliza DIP Financing com prioridade legal sobre os demais credores.
O assessor que não domina essa mecânica vai ficar no mato alto quando o cliente perguntar sobre o produto. O que está chegando não é mais “crédito privado genérico com risco” – tem nome, tem estrutura jurídica específica, tem hierarquia de pagamento. Sem entender isso, a explicação para o cliente vai ser vaga, e vaga não fecha.
Com juros elevados, seletividade bancária crescente e inadimplência corporativa no patamar de 2026, o pipeline de ativos estressados no Brasil não vai encolher. O segmento vai ganhar espaço – e quem dominar a conversa vai ter diferencial real no atendimento de clientes qualificados.
Minha leitura
Crédito estressado bem gerido pode ser parte legítima de uma carteira diversificada – mas o “bem gerido” carrega muito peso nessa frase. Antes de alocar qualquer cliente nesse tipo de estrutura, a pergunta que precisa ter resposta clara é: como esse fundo recupera quando o devedor não paga? Qual o processo jurídico? Quem é o gestor de recuperação?
O número de 0,4% de vencidos no IOX Special em abril de 2026 é positivo. Mas representa o histórico de um fundo operando com juros altos – quando o ciclo mudar, os ativos que estão vencidos hoje podem mudar de perfil de recuperação. Vale atenção a FIDCs desse tipo que chegam na sua mesa apresentados como crédito privado convencional. Não são.
Fonte: BM&C News





