Spreads negativos e R$ 25 bi em resgate: o alerta do CEO da Sparta sobre crédito privado
O CEO da Sparta Investimentos, Ulisses Nehmi, disse o que boa parte do mercado pensa mas poucos falam em voz alta: o crédito privado está no pior equilíbrio risco-retorno já visto. A mediana dos spreads de debêntures isentas terminou julho negativa em 0,02%. Quem tem crédito privado na base precisa entender o que esse número significa.

O que aconteceu
Ulisses Nehmi, CEO da Sparta Investimentos, uma das principais gestoras de crédito privado do Brasil, concedeu entrevista ao NeoFeed com uma avaliação dura sobre o momento atual do mercado de crédito.
A tese central: estamos no pior equilíbrio risco-retorno que o mercado de crédito já viveu. A combinação é perigosa: juros altos sem perspectiva de queda, enquanto os spreads de crédito (o prêmio que o investidor recebe por assumir risco de não pagamento) fecharam em vez de abrir.
O número mais revelador: a mediana dos spreads de debêntures isentas terminou julho negativa em 0,02%. Isso quer dizer que, em média, o investidor recebeu menos do que a referência de mercado por assumir risco de crédito. Nehmi resumiu assim: “Spread de crédito não é termômetro de retorno, é termômetro de risco.”
O fluxo de saques confirma que algo está se movimentando. Fundos de crédito isentos registraram saques líquidos próximos de R$ 25 bilhões entre maio e julho de 2026, sendo R$ 4 bilhões apenas em julho.
A Sparta aponta como causas a combinação de excesso de liquidez no período (pagamentos do FGC e dividendos concentrados), os efeitos da Medida Provisória 1303 e a deterioração de nomes específicos como Raízen e GPA, que abalaram a confiança do mercado.
Quais setores têm mais segurança, quais têm mais risco
Segundo Nehmi, os setores com receitas mais previsíveis e contratos de longo prazo são os mais defensivos agora: infraestrutura, energia elétrica, saneamento e rodovias. Do outro lado, os setores mais expostos são varejo, imobiliário, saúde e agronegócio, com exceção de empresas sólidas que tiveram abertura significativa de spread.
A Sparta está priorizando empresas com receitas previsíveis e mantendo caixa mais alto nos fundos não isentos, que têm mais liberdade de alocação do que os isentos.
O cenário à frente
Nehmi prevê que o volume de emissões deve permanecer fraco no segundo semestre. E alerta: se houver alguma oscilação negativa adicional no mercado, novos resgates podem acontecer, criando pressão sobre os preços dos ativos de crédito.
“Se fosse frágil em nível super barato, ok. Mas é equilíbrio frágil em nível caro”, disse o CEO da Sparta.
Por que isso importa pro assessor
Crédito privado está em quase toda base de assessor que trabalha com investimentos: debêntures isentas, CRIs, CRAs, fundos de crédito, FIDCs. Se os spreads fecharam a ponto de ficarem negativos, a relação risco-retorno se inverteu. O cliente está assumindo risco de crédito e sendo remunerado abaixo do esperado.
Isso não significa que vai dar default amanhã. Significa que o prêmio que justificava a alocação sumiu. Quem carregou esses ativos a spreads fechados vai sentir se o ciclo virar.
R$ 25 bilhões em saques em 3 meses é sinal de que os investidores que acompanham de perto estão saindo. Se o assessor ficar pra trás nessa movimentação, pode se ver explicando perdas que vieram de ativos que “deveriam ser conservadores”.
A pergunta que o assessor deveria fazer hoje: quanto da minha base está alocado em crédito privado? Quais empresas? Quais setores? Qual o prazo médio?
Minha leitura
Crédito privado em spread negativo é mato alto. Você não vê o problema até tropeçar nele. Momento de ser mais seletivo, não de ampliar exposição.
Vale atenção principalmente a nomes nos setores mais cíclicos: varejo, saúde, imobiliário. Quem tem cliente exposto nessas faixas deve avaliar o prazo e a qualidade dos emissores. Fundos isentos com menos liquidez são os mais vulneráveis a novos resgates caso apareça mais volatilidade.
O jogo aqui é simples: quando o mercado paga menos pelo risco, a assimetria está do lado errado. Não é hora de oba-oba com crédito privado.
Fonte: NeoFeed





