R$ 440 mi para fazer o que você faz por R$ 200 ao mês: a startup que chegou pra disputar a sua base
A Decade saiu do modo stealth hoje, 4 de agosto, com US$ 85 milhões (cerca de R$ 440 milhões) em caixa, fundada pelo ex-CTO do Nubank e com a missão declarada de entregar gestão de patrimônio para quem hoje não tem acesso a um assessor dedicado. O modelo: assinatura de R$ 200 por mês, IA que monitora carteira 24 horas, consolidação de contas via Open Finance e consultores humanos por trás.

O que aconteceu
A Decade é uma startup de gestão de patrimônio fundada por Vitor Olivier, ex-CTO do Nubank e um dos primeiros engenheiros da empresa, e Felipe Meneses, cofundador da Hyperplane (adquirida pelo Nubank em 2024) e primeiro brasileiro a receber a Thiel Fellowship.
A rodada de US$ 85 milhões foi classificada como a maior rodada seed da história do Brasil e da América Latina. Participaram do aporte os fundos Benchmark, GreenOaks, Diffusion, Norte Ventures e Atlantico.
A proposta da empresa é ser um “multi-family office acessível”. Historicamente, esse tipo de serviço, que consolida patrimônio, identifica problemas tributários, monitora alocação e oferece planejamento financeiro personalizado, estava restrito a quem tinha patrimônio muito elevado. A Decade quer fazer o mesmo por R$ 200 mensais, usando IA pra escalar o que hoje um time grande de analistas faria manualmente.
Na prática, a plataforma consolida informações via Open Finance (contas bancárias, carteiras, investimentos), monitora concentração de risco, liquidez e alocação, e identifica oportunidades de otimização tributária e planejamento. Os clientes têm acesso a consultores financeiros humanos além da IA.
A empresa já tem integração com BTG Pactual, XP Investimentos, Genial e C6 Bank. Atualmente opera com 26 profissionais entre engenheiros e consultores financeiros, tem “alguns bilhões de reais” sob análise experimental e está em fase beta, com lista de espera aberta para novos usuários.
Do ponto de vista regulatório, a Decade tem licença de consultoria de investimentos da CVM e está solicitando autorização para operar como gestora de carteiras administradas.
Quem está por trás
Olivier foi um dos primeiros engenheiros do Nubank e depois se tornou CTO. Meneses fundou a Hyperplane, startup de inteligência artificial aplicada ao setor financeiro, que o Nubank adquiriu em 2024. Os dois se conheceram ali, dentro da empresa. Olivier deixou o Nubank em setembro de 2025 e foi montar a Decade, inicialmente chamada de Frontier Technologies.
Julio Vasconcellos, da Atlantico (um dos fundos investidores), resumiu a tese de investimento assim: “A última onda de inovação em serviços financeiros se concentrou em transformar os bancos. Na gestão de patrimônio, pouco mudou.”
Olivier afirmou que o objetivo é “ser um ponto de entrada agnóstico” para encontrar melhores produtos independentemente da instituição financeira onde o cliente está. A estratégia geográfica segue o mesmo modelo do Nubank: usar o Brasil como laboratório e depois expandir internacionalmente.
Por que isso importa pro assessor
O cliente que a Decade quer atender é, em grande medida, o cliente que o assessor atende ou tenta prospectar: quem tem patrimônio relevante, mas não grande o suficiente pra justificar um family office privado.
A oferta de R$ 200 por mês, combinada com IA que monitora carteira 24 horas e Open Finance que consolida tudo automaticamente, cria um produto que automatiza parte do trabalho do assessor a custo menor. Não quer dizer que o assessor vai desaparecer, mas significa que o cliente vai comparar.
A integração com BTG e XP chama atenção: a Decade não é um banco alternativo, é uma camada de gestão em cima das mesmas corretoras onde o assessor trabalha. O cliente pode ter a conta no escritório e contratar a Decade por fora para monitorar e questionar as alocações.
Do ponto de vista regulatório, a empresa já opera como consultoria de investimentos pela CVM e está pedindo autorização como gestora. São as mesmas licenças que muitos consultores fee-based têm ou buscam ter.
Minha leitura
Isso sinaliza onde o mercado está indo: serviços que antes eram exclusivos de grandes patrimônios vão ficando acessíveis por R$ 200 ao mês. O assessor que chegou à velocidade de cruzeiro, confortável com o relacionamento que já tem, vai sentir esse movimento antes de perceber.
Vale atenção ao que a Decade declarou não ser: não é substituto do assessor, é um serviço que combina IA com consultor humano. O que ela substitui é o assessor que só faz relatório mensal e ligação de meta. Quem constrói relacionamento de verdade, entende o cliente além da carteira, o risco no patrimônio do filho, o divórcio que está chegando, não tem substituto digital.
O jogo aqui é o seguinte: o assessor que não consegue explicar por que o cliente pagaria mais do que R$ 200 por mês pelo serviço dele vai sentir esse movimento. O que vai separar os dois é o que a IA não faz.
Fonte: InfoMoney





