Risco climático já é risco de carteira, diz diretora da COP30
Alice Amorim, diretora de programas da COP30, foi direta na SP Climate Week: adaptação climática ainda não é ativo de investimento, mas já é risco sistêmico. O mercado financeiro ainda não acordou pra isso. Quando acordar, vai chegar com reprecificação.

O que aconteceu
Na SP Climate Week, realizada em São Paulo, Alice Amorim apresentou um diagnóstico que precisa entrar no radar de qualquer profissional que monta carteiras de longo prazo: o Brasil saiu da fase de planejamento de adaptação climática e entrou na fase de implementação, através dos Planos Nacionais de Adaptação (NAPs) e do Plano Nacional do Clima. O mercado financeiro, porém, ainda não acompanhou esse movimento.
O Ministro de Meio Ambiente e Mudança Climática, João Capobianco, foi direto: “os recursos públicos e privados existem para investimento, mas isso ainda não entrou no radar do setor econômico”.
A conta do atraso aparece nos dados. Levantamento do BCG e do Fórum Econômico Mundial aponta que desastres climáticos causaram R$ 21 trilhões em perdas desde 2000. Sem correção de rota, a estimativa é de redução de 22% do PIB global até o final do século.
Maria Netto, do Instituto Clima e Sociedade, identificou o problema estrutural: as empresas ainda avaliam risco climático com base em dados históricos, sem considerar o aumento de frequência e intensidade dos eventos futuros. É como precificar risco de crédito olhando só pra dados de 2010, ignorando o que mudou no ciclo.
O modelo atual tem outro gargalo. Natasha Alves dos Reis, do BID Invest, chamou de “vale da morte” o espaço entre o desenho de projetos de adaptação e a estruturação em ativos financiáveis. Muitos projetos existem. Poucos têm como virar produto de investimento.
Para tentar fechar esse gap, o BID vai lançar um Acelerador Regional de Adaptação, com anúncio previsto para a COP31, na Turquia, em novembro de 2026. A parceria BID-Santander pelo programa EcoInvest também amplia cobertura pra agricultura, uso da terra e infraestrutura resiliente no Brasil e na América Latina.
O argumento de retorno existe: estudo do WRI mostrou que cada R$ 1 investido em resiliência climática gera mais de R$ 10 em benefícios ao longo de dez anos. O problema não é a equação financeira. É a falta de instrumento que transforme isso em produto investível.
O problema dos 17 países fragmentados
Dos 33 países da América Latina, 17 ainda têm planos de adaptação fragmentados, sem aceleração coordenada. Isso significa que a capacidade de absorção de capital de adaptação regional é baixa, e que os primeiros instrumentos que resolverem esse problema vão ter captação desproporcional ao que o mercado espera hoje.
Por que isso importa pro assessor
Parte expressiva das carteiras de clientes tem exposição a setores diretamente afetados por risco climático: agronegócio, infraestrutura, imóveis em regiões de risco hídrico ou costeiro, fundos de logística. Quem tem cliente com FIIs logísticos, fundos de desenvolvimento de infraestrutura ou qualquer ativo atrelado à cadeia do agro precisa entender que esse risco ainda não está precificado nos ativos.
O aviso de Capobianco é o mais relevante pra quem monta carteira: os recursos existem, o risco é real, mas o mercado financeiro ainda não operacionalizou o mapeamento. Quando o mercado acordar pra isso, vai ser com reprecificação. Quem avisou o cliente antes carrega autoridade. Quem ficou esperando vai ter que explicar churn de carteira que ele não soube antecipar.
Minha leitura
O ponto que mais me chamou atenção foi o “vale da morte” descrito pelo BID Invest: tem risco real, tem recurso disponível, mas não tem estrutura financeira pra conectar os dois. Quando o mercado resolver isso, vai ter janela de captação. Vale atenção a movimentações de fundos de infraestrutura e crédito verde nos próximos meses, especialmente depois da COP31 em novembro. Quem tem cliente com horizonte de 10 anos e perfil arrojado pode estar olhando pra essa janela antes de ela abrir de vez.
Fonte: Exame





