Oncoclínicas, Raízen e GPA: o mapa de quem saiu da crise no crédito privado
O crédito privado brasileiro cobrou a conta em 2026. Raízen, Oncoclínicas, Pão de Açúcar: empresas grandes, com papel na carteira de muita gente, viraram laboratório vivo de como o mercado trata o investidor PF numa crise. O resultado foi bem diferente caso a caso.

O que aconteceu
O mercado de crédito privado no Brasil acumulou uma fila de recuperações em 2025 e 2026 que criou um novo padrão: o da negociação. Não é mais o caso de ignorar o investidor de varejo, pelo menos não em todos os processos.
A Raízen (RAIZ4) virou referência do que pode ser feito quando se quer preservar reputação. O processo de recuperação extrajudicial tratou o investidor PF nas mesmas condições do institucional, com as mesmas opções de negociação na mesa. Analistas chamaram de processo muito justo. No mercado de crédito privado brasileiro, isso não é padrão.
A Oncoclínicas foi num caminho diferente em termos de complexidade. A empresa protocolou recuperação extrajudicial em junho de 2026 para reestruturar R$ 5,1 bilhões em dívidas. São 40 mil investidores PF com R$ 1,27 bilhão expostos em sete CRIs. Em abril, uma decisão judicial suspendeu o fluxo financeiro dos CRIs e das debêntures. O processo de negociação ainda está em andamento: 37% dos credores já aderiram, mas o quórum mínimo exige 50% mais um. O PF não negocia direto; a representação ficou delegada a escritórios especializados contratados pelos próprios instrumentos (Mattos Filho e Journey Capital para os CRIs; Padis Advogados e Houlihan Lokey para as debêntures).
O Grupo Pão de Açúcar (GPA) também entrou na lista de empresas com dificuldade de crédito. O cenário geral ficou claro nos dados do mercado: a saída líquida de renda fixa chegou a R$ 19,3 bilhões só em abril de 2026. Quem tinha CRA de empresas de commodities ou varejo nos últimos dois anos viu o desconto no mercado secundário chegar a 70% em alguns papéis.
A seletividade ficou escancarada nos dados de negociação: títulos de Vale, Petrobras, Eletrobras e Sabesp lideraram as transações no período. O crédito privado não quebrou como classe de ativo. Ficou mais seletivo. O risco que antes parecia igual pra todo papel agora tem diferenciação clara.
Especialistas do mercado apontam que a melhora estrutural deve vir só em 2027 ou 2028, quando a queda de juros aliviar o caixa operacional das empresas mais alavancadas. Até lá, o cenário é de seleção.
Por que isso importa pro assessor
Quem tem cliente com exposição em crédito privado precisa saber exatamente o que tem na carteira. Não basta a categoria “crédito privado”: qual empresa, qual rating, qual tipo de garantia. Os sete CRIs da Oncoclínicas são quirografários, sem garantia real. Só um é lastreado em imóvel. O cliente que não sabe disso vai descobrir quando o fluxo suspenso aparecer no extrato e ligar perguntando o que aconteceu.
O modelo de comunicação com o cliente muda em crise. A Raízen criou precedente de processo claro e igual pra todo mundo. Já a Oncoclínicas tem 40 mil PFs sendo representados por terceiros, sem acesso direto à negociação. Quem vai explicar esse processo pro cliente é o assessor. A preparação pra essa conversa começa agora, não quando o processo fechar.
Minha leitura
O crédito privado mostrou duas versões de si mesmo em 2026: processo bem conduzido (Raízen) e processo complexo com muita gente no meio (Oncoclínicas). A lição não é sair do crédito privado como classe, é entender o que você aloca antes de alocar. Rating, tipo de garantia, alavancagem, histórico de governança. Vale atenção ao desfecho das negociações da Oncoclínicas nas próximas semanas: o resultado vai virar referência de como o mercado trata o PF nos próximos processos.
Fonte: Estadão





