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NOTÍCIA

TJ-MG trava credores da Estrela com passivo 3x o valor de mercado

TJ-MG concedeu tutela de urgência à Estrela nesta segunda (25). Passivo R$ 109 mi, 92% sem garantia e juros consumindo 67% da receita trimestral.

Prateleiras com brinquedos clássicos em loja com iluminação fria, estética documental

TJ-MG trava credores da Estrela com passivo 3x o valor de mercado

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais concedeu tutela de urgência ao Grupo Estrela nesta segunda-feira (25) para proteger a empresa de pressões financeiras imediatas enquanto o processo de recuperação judicial aguarda homologação. O passivo total do grupo é de R$ 109,2 milhões. O valor de mercado da empresa: em torno de R$ 32 milhões. A dívida supera o valor da empresa em mais de 3x. E 92,47% desse passivo não tem garantia real nenhuma.

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O que aconteceu

A Manufatura de Brinquedos Estrela (ESTR4) e mais oito empresas do grupo protocolaram pedido de recuperação judicial em 20 de maio de 2026 na Comarca de Três Pontas, Minas Gerais. A urgência tinha motivo concreto: desde abril de 2026, a Ipiranga Factoring corre com um pedido de falência contra uma das subsidiárias do grupo. A tutela concedida hoje trava dois movimentos que ameaçavam a operação: corte de serviços essenciais por fornecedores com pagamentos atrasados (energia, água, internet, logística) e aceleração de vencimentos por bancos credores – qualquer banco que usar esse mecanismo responde com multa de R$ 50 mil por dia.

O passivo de R$ 109,2 milhões tem uma concentração preocupante. A dívida trabalhista é de R$ 3,2 milhões. O restante é financeiro e operacional, e quase a totalidade é quirografária: 92,47% do passivo não tem nenhum ativo em garantia. O maior credor financeiro individual é o American Bank, com R$ 9,9 milhões. Santander aparece com R$ 1,2 milhão. Banco do Brasil com R$ 25,3 mil em tarifas. Uma lista de FIDCs e factorings completa o quadro: Ignis Capital, Ativa, GFM, B. Invest, BFC, Mariotoni e Innovate, com Brinquemolde Licenciamento como principal tomadora.

O cálculo financeiro não deixa muito espaço para interpretação. A receita trimestral do grupo gira em torno de R$ 60 milhões. A despesa financeira trimestral chega a R$ 40 milhões. Os juros consomem 67% da receita antes de pagar funcionário, fornecedor ou matéria-prima.

A Estrela tem 89 anos de história. Fundada em 1937 pelo alemão Siegfried Adler, em São Paulo, a empresa chegou a empregar mais de 10 mil pessoas. Hoje são cerca de 500. O portfólio que marcou gerações está intacto no catálogo: Autorama, Banco Imobiliário, Genius, boneca Susi, Falcon, Detetive, Jogo da Vida, Cara a Cara. O controlador é Carlos Antonio Tilkian, de 94 anos, com 94,72% das ações ordinárias. Esta é a terceira recuperação judicial da empresa em duas décadas.

O ambiente competitivo destruiu a margem que sobrou. As importações formais de brinquedos praticamente dobraram nos últimos seis anos: de US$ 53,3 milhões em 2020 para US$ 102,5 milhões em 2026. A pirataria do setor, segundo dados da indústria, acumulou perdas estimadas em R$ 86,6 bilhões entre 2021 e 2026. A disputa com produtos digitais – tablets, celulares, jogos online – tomou fatia estrutural de clientes que não volta.

A defesa do grupo argumenta que o problema não é operacional. A crise vem do “severo endividamento bancário decorrente de taxas absurdamente elevadas”. Com R$ 40 milhões de despesa financeira por trimestre sobre R$ 60 milhões de receita, esse argumento tem base aritmética.

A partir da homologação judicial do processo – ainda pendente – a empresa terá 60 dias para apresentar o plano de recuperação, que precisará ser aprovado pelos credores.

Por que isso importa pro assessor

Dois ângulos.

Primeiro: se você tem cliente com posição em ESTR4, seja em ações ou em instrumentos de renda variável ligados ao grupo, o cenário mudou. Há proteção judicial ativa hoje, mas sem plano aprovado ainda. O prazo de 60 dias começa a contar após a homologação. A posição precisa ser revisada agora, não quando o plano aparecer.

Segundo, e mais amplo: o perfil do passivo da Estrela é o espelho do risco que muita carteira carrega sem saber. 92,47% de dívida quirografária num grupo com valor de mercado de R$ 32 milhões e passivo de R$ 109 milhões não é só problema da Estrela – é a estrutura de risco que aparece em emissores de crédito privado com frequência maior do que os spreads atuais refletem. Quando o calote vier, quem tem papel quirografário entra na fila por último. Sem preferência, sem ativo como garantia.

Marca reconhecida não é rating de crédito. Essa confusão custa caro.

Minha leitura

Genius, Autorama, Banco Imobiliário. Quem tem mais de 30 anos conhece esses produtos de memória. E é exatamente isso que torna o caso perigoso como referência: a familiaridade com a marca cria uma sensação de solidez que os números não sustentam.

O que o caso ilustra na prática é o risco de alocar crédito em empresas cujo endividamento bancário virou despesa recorrente maior do que a operação consegue absorver. Esse é o mato alto que cresce devagar em carteiras de crédito privado mal estruturadas. Não é só problema de brinquedo. É o modelo de várias empresas que estão hoje emitindo debêntures com spread de 3% sobre CDI como se fossem grau de investimento.

Vale atenção ao plano de recuperação quando vier. Vai revelar o que sobrou de valor real nos ativos do grupo – e vai dar uma amostra de quanto os credores quirografários vão conseguir recuperar. Quem está alocando crédito privado sem olhar a estrutura de garantias do emissor deveria usar esse caso como exercício.

Quem tem ESTR4 na carteira do cliente: conversa hoje.

Fonte: Folha Mercado

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