Quem tem uma bolsa não tem nenhuma: o desafio da Base Exchange à B3
Depois de mais de uma década sem concorrente real, a B3 está na iminência de ter uma disputa de verdade. A Base Exchange, nova bolsa de valores sediada no Rio de Janeiro e controlada pelo fundo soberano Mubadala Investment Company, de Abu Dabi, está na fase final de aprovação regulatória pela CVM e pelo Banco Central. Se o ritmo se mantiver, o primeiro trade acontece no primeiro semestre de 2027.

O que aconteceu
Claudio Pracownik, CEO da Base Exchange, concedeu entrevista ao Money Times e detalhou o estágio atual do projeto. A bolsa já concluiu testes junto à CVM e está avançando no processo com o Banco Central. Entre a aprovação regulatória e o primeiro trade, a estimativa é de até seis meses de implantação.
O fundo controlador, Mubadala, é um dos maiores fundos soberanos do mundo, com sede em Abu Dabi. A entrada de um player dessa envergadura como controlador de infraestrutura de mercado no Brasil é incomum – e é exatamente o que diferencia essa tentativa das anteriores, que não passaram de intenção por falta de capital e credibilidade regulatória.
A Base Exchange começa pelo mercado de cash equities, o mercado à vista de ações. Vai operar com os mesmos ativos listados hoje na B3. A tese de Pracownik é que o monopólio atual não beneficia o mercado – e ele usa a experiência australiana como referência: depois de 18 meses com duas bolsas em operação no país, o mercado cresceu entre 10% e 15%. A explicação é que mais competição atrai mais participantes institucionais, não fragmenta os que já estão.
Os investidores estrangeiros respondem hoje por 40% a 50% do volume negociado na B3. Pracownik argumenta que a presença de uma segunda bolsa é exatamente o que esse perfil de investidor quer ver antes de aumentar exposição ao Brasil – e que o monopólio é uma das razões pelas quais o país vive a maior seca de IPOs em quase 30 anos.
A B3, por sua vez, já se movimentou. Antes mesmo da aprovação da concorrente, a bolsa lançou novos produtos e testou modelos alternativos de tarifação. É o movimento esperado de quem sabe que o jogo está mudando.
A Selic estava em 14,75% no momento da entrevista, com projeções de atingir cerca de 13% ao fim do ano – um dos fatores que tornam o ambiente atual mais difícil para que a nova bolsa acelere captações e liquidez no lançamento.
Por que isso importa pro assessor
No curto prazo, nada muda operacionalmente. A aprovação ainda não saiu, e entre ela e o primeiro trade tem pelo menos seis meses de implantação. Mas no médio prazo, a existência de duas infraestruturas de bolsa no Brasil pode afetar custos de transação, regras de custódia e dinâmica de distribuição de ativos.
O que vai aparecer primeiro é no nível do cliente: quando a Base Exchange tiver licença e começar a operar, perguntas sobre “qual bolsa opera qual ativo” vão chegar na reunião. Vale entender a mecânica agora, antes que a pergunta chegue sem resposta.
Minha leitura
O Mubadala como controlador muda o nível de seriedade da conversa. Não é mais o projeto de grupo local que precisava de dinheiro – é um fundo soberano usando infraestrutura de mercado como alocação estratégica. Isso tem peso diferente na mesa com o regulador. A B3 ficou gato gordo na proteção do monopólio por quase três décadas. Competição real muda o ritmo – e o benefício maior vai ser pra quem opera no mercado, não pra quem administra a infraestrutura. O que vale acompanhar agora é a aprovação pelo Banco Central, ainda pendente. Enquanto não sair, continua sendo projeto. Quando sair, é contagem regressiva de seis meses.
Fonte: Money Times





