CVM admite: se o Drex não andar, stablecoin ocupa o espaço
Antonio Berwanger, superintendente de Desenvolvimento de Mercado da CVM, disse algo que ninguém do mercado regulado gosta de ouvir em público: se uma CBDC funcional não avançar no Brasil, a discussão sobre stablecoins como mecanismo de liquidação de mercados tokenizados se torna inevitável. A declaração saiu no Tokenização Day realizado pela B3, nesta terça-feira (26).

O que aconteceu
O evento reuniu participantes do mercado financeiro para discutir a infraestrutura de ativos tokenizados no Brasil. Berwanger colocou na mesa a questão central que reguladores e bancos vinham evitando nomear diretamente: o gargalo não está na negociação dos ativos tokenizados, mas na liquidação financeira depois que o negócio acontece.
“Caso uma CBDC funcional não avance, o mercado inevitavelmente cai na discussão sobre stablecoins”, afirmou o superintendente. A declaração é pesada porque vem de dentro do regulador – não de um banco privado com interesse em stablecoin própria.
O que é o problema da liquidação
Numa bolsa tradicional, o ciclo de negociação tem um trilho certo: negocia, liquida, registra. Tudo dentro de uma infraestrutura com regras claras. Em mercados tokenizados, o problema está no segundo passo. Quem garante a liquidação financeira? Com qual moeda digital? Reconhecida por qual lei?
Berwanger questionou diretamente: “até que ponto o Judiciário brasileiro estará preparado para reconhecer que o registro em blockchain é suficiente?”. A resposta, por enquanto, é: não se sabe. E o mercado não pode esperar indefinidamente pela resposta.
Projeto 135 Light e B3RL
A B3 apresentou no evento o projeto “135 Light”, estrutura para custódia e depositária central em mercados tokenizados. Junto com isso, a bolsa planeja lançar a stablecoin B3RL no primeiro semestre de 2026, desenvolvida em tecnologia Polygon. A ideia de longo prazo é que liquidações possam ocorrer diretamente na rede usando B3RL – mas isso ainda está em desenvolvimento.
A CVM adiantou que vai abrir consulta pública sobre mercados tokenizados ainda em 2026. O órgão reconhece que o Brasil ainda não tem legislação específica que reconheça o registro em blockchain como comprovação de titularidade. Esse vácuo mantém a discussão sobre stablecoins aberta – e, segundo o próprio superintendente, crescente.
Por que isso importa pro assessor
O debate sobre Drex versus stablecoin não é só questão técnica. É sobre qual trilho vai sustentar a próxima geração de produtos de investimento disponíveis no Brasil.
Se o mercado caminhar para stablecoins como mecanismo de liquidação – e a CVM está sinalizando que esse cenário não pode ser descartado – isso muda o perfil dos produtos que os assessores vão alocar na base daqui a 3-5 anos. Ativos tokenizados com liquidação em stablecoin têm mecânica, risco jurídico e regulação diferentes de fundo, debênture ou COE.
O assessor que não entende o que está sendo construído agora vai estar no mato alto quando esses produtos chegarem no varejo. E vão chegar.
Minha leitura
O que vale atenção aqui é o que Berwanger não disse explicitamente, mas que está nas entrelinhas: o Drex está atrasado, e o mercado não vai esperar indefinidamente. A B3 já se posicionou com stablecoin própria e depositária tokenizada. Se a CBDC do Banco Central não virar infraestrutura funcional até a janela de 2027, a liquidação privada avança – e o regulador vai ter que correr atrás.
Quem tem cliente com perfil de planejamento patrimonial de longo prazo deve começar a entender essa dinâmica agora. Não é sobre colocar cliente em stablecoin. É sobre saber o que está sendo construído nos bastidores do mercado financeiro brasileiro antes que o produto apareça na prateleira.
Fonte: Exame





